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Semaglutida e Tirzepatida podem parar a menstruação? Entenda a relação com amenorreia.

  • Foto do escritor: Dra Júlia Cargnin
    Dra Júlia Cargnin
  • 21 de fev.
  • 4 min de leitura

A menstruação pode parar depois das “canetas”?


Essa é uma pergunta cada vez mais comum no consultório.


Medicamentos como a Semaglutida (Ozempic®, Wegovy®) e a Tirzepatida (Mounjaro®) ajudam muitas mulheres a perder peso. Em casos de resistência à insulina ou Síndrome dos Ovários Policísticos, o emagrecimento pode inclusive restaurar a ovulação e melhorar a fertilidade.


Mas existe outro cenário.


Quando a perda de peso acontece de forma muito rápida, com redução importante de gordura corporal e massa muscular, o organismo pode interpretar essa mudança como um estado de escassez. E, diante disso, ele prioriza a sobrevivência — suspendendo temporariamente a função reprodutiva.


O que é amenorreia?


Amenorreia significa ausência de menstruação.


Existem várias causas. No contexto do emagrecimento acelerado, estamos falando da chamada amenorreia hipotalâmica funcional.


“Funcional” porque não há falha estrutural no ovário ou no útero. O que ocorre é uma adaptação do cérebro diante de um desequilíbrio energético.


Como isso acontece no corpo?


O ciclo menstrual depende de uma comunicação delicada entre cérebro e ovários.


O hipotálamo libera o GnRH, que estimula a hipófise a produzir LH e FSH. Esses hormônios ativam o ovário, promovem a ovulação e mantêm a produção de estrogênio.


Quando há déficit energético significativo — seja por restrição alimentar, perda de peso rápida ou exercício excessivo — o hipotálamo reduz o estímulo hormonal.


O resultado é:

  • Diminuição de GnRH

  • Redução de LH e FSH

  • Queda do estrogênio

  • Ausência de ovulação

  • Interrupção da menstruação


Esse mecanismo é semelhante ao que ocorre na Anorexia nervosa, embora o contexto seja diferente. Na anorexia, a restrição é voluntária e ligada a um transtorno alimentar.


No uso das medicações, a fome é suprimida farmacologicamente. Para o cérebro, porém, o sinal de baixa energia pode ser interpretado de maneira semelhante.


A ciência já comprovou essa relação?


Aqui é importante sermos precisas.


Até o momento, não existem estudos robustos demonstrando que semaglutida ou tirzepatida causem amenorreia de forma direta. Amenorreia não é descrita como efeito adverso clássico nos grandes ensaios clínicos.


No entanto, é amplamente comprovado que déficit energético importante pode desencadear amenorreia hipotalâmica funcional. E sabemos que esses medicamentos podem levar a perdas de peso significativas e rápidas.


Portanto, o que existe hoje é uma plausibilidade fisiológica consistente, baseada em mecanismos já conhecidos da endocrinologia — mas não uma relação causal formalmente estabelecida por estudos específicos.


Em outras palavras: não é um efeito direto comprovado da medicação, mas pode ocorrer como consequência do contexto metabólico que ela gera.


Por que a perda rápida é o ponto crítico?


Perdas graduais costumam ser melhor toleradas pelo organismo. Já reduções de 10 a 20% do peso corporal em poucos meses podem provocar:

  • Queda acentuada da leptina (hormônio que sinaliza reserva energética)

  • Redução de massa muscular

  • Aumento do estresse fisiológico


Mesmo mulheres que não estão abaixo do peso podem desenvolver amenorreia se o corpo interpretar que não há energia suficiente disponível.


Quais os riscos de ficar muito tempo sem menstruar?


A ausência prolongada de estrogênio pode levar a:

  • Perda de densidade óssea

  • Maior risco de osteopenia e osteoporose

  • Secura vaginal e desconforto na relação

  • Alterações de humor

  • Infertilidade temporária


A menstruação é um marcador de equilíbrio hormonal. Quando desaparece por meses, o corpo está emitindo um sinal que precisa ser investigado.


É possível recuperar o ciclo?


Sim, na grande maioria das vezes.


O caminho não é simplesmente induzir um sangramento, mas restaurar o equilíbrio energético. Isso pode envolver ajuste da ingestão calórica, adequação da proteína, preservação da massa muscular, revisão da intensidade dos treinos e manejo do estresse. Quando o organismo volta a perceber segurança metabólica, o eixo hormonal tende a se reorganizar e o ciclo pode retornar.


Uma reflexão necessária


Os análogos de GLP-1 são ferramentas terapêuticas relevantes quando bem indicados e acompanhados. No entanto, o uso indiscriminado, motivado exclusivamente pela busca de um padrão estético de magreza extrema, pode transformar um recurso médico em fator de risco. O emagrecimento não deve ser conduzido como uma disputa contra o próprio corpo. Quando a perda de peso ignora limites fisiológicos e não respeita a individualidade metabólica da mulher, o organismo responde — e, muitas vezes, responde suspendendo a função reprodutiva.



Saúde hormonal não é apenas um número na balança.


Quando procurar a ginecologista?


  • Se você está há mais de três meses sem menstruar

  • Se perdeu peso rapidamente e o ciclo mudou

  • Se deseja engravidar

  • Se apresenta sintomas de baixa de estrogênio


Avaliar corretamente o tipo de amenorreia é fundamental para proteger fertilidade, ossos e saúde a longo prazo.


📍 Dra. Julia Cargnin – CRM-GO 23.738 | RQE 12.536


Avaliação individualizada faz diferença.


Referências

  1. Gordon CM, Ackerman KE, Berga SL, et al. Functional Hypothalamic Amenorrhea: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2017;102(5):1413–1439.

  2. Loucks AB, Thuma JR. Luteinizing hormone pulsatility is disrupted at a threshold of energy availability in regularly menstruating women. J Clin Endocrinol Metab. 2003;88(1):297–311.

  3. Misra M, Klibanski A. Endocrine consequences of anorexia nervosa. Lancet Diabetes Endocrinol. 2014;2(7):581–592.

  4. FDA – U.S. Food and Drug Administration. Ozempic® (semaglutide) Prescribing Information. 2023.

  5. FDA – U.S. Food and Drug Administration. Mounjaro® (tirzepatide) Prescribing Information. 2023.

 
 
 

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© 2025 Por Dra. Julia Cargnin.

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