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SOMP: Por que a Síndrome dos Ovários Policísticos mudou de nome?

  • Foto do escritor: Dra Júlia Cargnin
    Dra Júlia Cargnin
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

Dra Julia Cargnin|Ginecologista
Dra Julia Cargnin|Ginecologista

Se você acompanha novidades sobre saúde feminina, provavelmente já ouviu falar da SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos). No entanto, essa condição está passando por uma das maiores transformações conceituais da sua história.

Recentemente, um comitê internacional liderado por centros de excelência propôs que a nomenclatura da doença seja alterada para refletir sua verdadeira natureza. Entre as principais propostas globais discutidas por especialistas da Monash University, está a transição para termos como PMOS (Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome) — que em português pode ser compreendida como uma Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina.

A mudança ainda está em processo de adoção progressiva e debates pelas sociedades médicas globais (com previsão de consolidação final), mas ela representa um marco fundamental na forma como entendemos, diagnosticamos e tratamos a condição.


Por que mudar o nome de SOP para SOMP?

O termo "Síndrome dos Ovários Policísticos" sempre gerou confusões no consultório e na literatura médica. O nome antigo falha por quatro motivos principais:

  • Não são cistos: Muitas pacientes chegam ao consultório assustadas achando que têm cistos que precisam de cirurgia. Na realidade, o que o ultrassom mostra são múltiplos folículos pequenos (estruturas normais do ovário que não se desenvolveram).

  • O ultrassom pode ser normal: Nem todas as mulheres com a síndrome apresentam o aspecto polifolicular no exame de imagem.

  • Visão limitada: O nome antigo foca apenas nos ovários, dando a falsa impressão de que se trata de um problema puramente ginecológico.

  • Subestima o metabolismo: A antiga nomenclatura deixa de fora os aspectos metabólicos e endócrinos, que são pilares centrais da condição.

Na prática, o termo SOP se tornou simplista demais para traduzir a complexidade sistêmica da doença.


Como surgiu a nova nomenclatura?

A discussão ganhou força global após as atualizações do International Evidence-Based Guideline. Grupos de trabalho internacionais realizaram consultas amplas com endocrinologistas, ginecologistas, cientistas e — crucialmente — com as próprias pacientes que vivem com a síndrome.

O objetivo era encontrar um termo cientificamente preciso e menos estigmatizante. A proposta de transição para SOMP foi liderada por centros de excelência global, como os grupos ligados à Monash University (Austrália), que coordenam as diretrizes internacionais da condição.

O que é a SOMP e quais são os sintomas?

A SOMP é uma condição hormonal e metabólica complexa que afeta entre 8% e 13% das mulheres em idade reprodutiva. Como ela envolve uma combinação variável de fatores, duas mulheres com SOMP podem ter sintomas completamente diferentes.

1. Alterações Menstruais e Reprodutivas

  • Ciclos menstruais irregulares ou muito espaçados (oligomenorreia).

  • Ausência completa de menstruação por meses (amenorreia).

  • Anovulação crônica (dificuldade para ovular) e, consequentemente, dificuldade para engravidar.

2. Sinais de Hiperandrogenismo (Excesso de Hormônios Masculinos)

  • Acne persistente e de difícil controle.

  • Queda de cabelo com padrão feminino (alopecia androgênica).

  • Crescimento de pelos em locais tipicamente masculinos, como rosto, seios e abdômen (hirsutismo).

3. Impactos Metabólicos

  • Resistência à insulina (o corpo precisa produzir mais insulina para colocar a glicose nas células).

  • Ganho de peso acentuado ou grande dificuldade para emagrecer.

  • Aumento do risco a longo prazo para Diabetes Tipo 2 e alterações no colesterol.

Como é feito o diagnóstico atual?

Apesar da mudança de nome, os critérios diagnósticos continuam seguindo o Consenso Internacional de Rotterdam (atualizado recentemente). Para fechar o diagnóstico de SOMP, a paciente precisa apresentar pelo menos dois dos três critérios abaixo (após excluir outras doenças hormonais):

Critério 1

Critério 2

Critério 3

Disfunção ovulatória (ciclos irregulares ou ausência de ovulação)

Hiperandrogenismo (comprovado por exames de sangue ou por sinais físicos como pelos e acne)

Ovários polifoliculares visualizados no ultrassom transvaginal

Atenção: Como o diagnóstico exige apenas dois critérios, uma mulher pode perfeitamente ter SOMP mesmo tendo um ultrassom de ovários com aspecto absolutamente normal. Isso reforça por que o nome antigo precisava mudar.

O que muda, na prática, para as pacientes?

Se você já tem o diagnóstico de SOP, não precisa se preocupar: as linhas de tratamento clínico continuam focadas nos seus sintomas e nos seus objetivos de vida (como regular o ciclo, tratar a pele ou engravidar).

A grande mudança é de mentalidade. O nome SOMP deixa claro para a paciente e para toda a equipe médica que:

  • A síndrome não é um problema exclusivo do útero ou do ovário.

  • O acompanhamento precisa olhar com atenção para o metabolismo, para a saúde cardiovascular e para o estilo de vida.

  • O cuidado deve ser integral, muitas vezes envolvendo ginecologista, endocrinologista e nutricionista.


Deixar o termo "SOP" para trás e adotar "SOMP" é um passo gigante para melhorar a comunicação médica, reduzir diagnósticos errados e garantir que a saúde da mulher seja tratada de forma sistêmica e individualizada.


Dra. Julia Cargnin

Ginecologista

CRM-GO 23.738 | RQE 12.536

📍 Goiânia – GO

📲 WhatsApp: (62) 99243-4114


Conteúdo estritamente informativo. Não substitui a consulta e a avaliação médica individualizada.

  • Monash University. International Evidence-Based Guideline for PCOS, 2023.

  • American Society for Reproductive Medicine. International PCOS Guideline Updates, 2025.

  • European Society of Human Reproduction and Embryology. PCOS Nomenclature Consensus Statements, 2025.

  • Teede HJ et al. International Evidence-Based Guideline for the Assessment and Management of PCOS. 2023.

  • Teede HJ et al. Global Consensus on PCOS Nomenclature. 2025.

 
 
 

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© 2025 Por Dra. Julia Cargnin.

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